segunda-feira, julho 20, 2009

«Décalage»

Não abdico do digital e das suas vantagens, mas há uma característica que não aprecio particularmente. Poderá parecer um contra-senso, mas aquela que é a mais aplaudida das vantagens é a que mais me desagrada. Refiro-me à possibilidade de visualizar as imagens de imediato. Gosto de dar às imagens um período de maturação. Gosto de apagar da memória um conjunto de expectativas que crio quando faço as fotos e que nem sempre se revelam como espero e abdicando desse "pre-conceito" fico aberto a aceitar outras fotos sobre as quais não tinha expectativas.

Vem tudo isto a propósito de um texto sobre Paulo Nozolino em que a páginas tantas refere:

" Sem saber o que é um computador, sem nunca ter tocado numa máquina digital, Nozolino assume a fotografia analógica como a única forma de trabalhar e prefere não abdicar dos três anos de «décalage» entre o clique da Leica e a ampliação da imagem. «Depois de fotografar guardo os rolos, passados seis meses revelo-os e vejo as provas de contacto e dois anos mais tarde amplio a fotografia. Preciso dessa distância fria. Só longe de qualquer tipo de emotividade é que consigo olhar para as imagens e perceber o que são. É esse tempo que o analógico exige de que eu não quero prescindir.»"
Foto: Sargaceiros da Vila de Apúlia - Agosto de 2003 (registado em película)

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